17 de abril de 2024
Economia

Financiamento chinês impulsiona projetos de energia renovável na América Latina

À medida que o mundo enfrenta uma das maiores ameaças de mudanças climáticas, os países se veem desafiados a adotar medidas decisivas para conter o aumento da temperatura média do planeta. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicado nesta segunda-feira (04/12), aponta que a China emerge como peça fundamental no quebra-cabeça da transição energética global. Seu papel não se limita apenas ao status como o maior emissor mundial de carbono, mas também se destaca devido à sua postura na promoção de tecnologias verdes e energias renováveis.
O texto para discussão “Os Financiamentos chineses em energias renováveis na América Latina e os desafios das mudanças climáticas” explora a transformação do perfil chinês, passando de grande emissor de carbono para protagonista na luta contra as mudanças climáticas. O foco recai sobre o compromisso da China com a transição para uma economia de baixo carbono e seu impacto crescente na América Latina, uma região onde a China desempenha papel cada vez mais relevante. Esta versão do texto é uma revisão da edição nº 35 do Boletim de Economia e Política Internacional (Bepi).
Para Marco Aurélio Alves de Mendonça, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e um dos autores da publicação, “além dos fatores de liderança tecnológica que podem contribuir para a transição energética, sobretudo em países menores com déficit de infraestrutura, a China reforçará seu papel na liderança das negociações internacionais para o combate à grave crise climática que enfrentamos. O país buscará estabelecer sua tecnologia como padrão, garantindo poder não apenas na esfera internacional, mas também geopolítica”, disse Mendonça. Ele destaca uma reação ocidental, principalmente dos EUA, e afirma que a “competição envolverá narrativas das mais diversas naturezas”, defende o pesquisador.
No século XXI, as mudanças climáticas tornaram-se uma realidade inegável. Eventos extremos, como inundações, secas, ondas de calor e incêndios florestais, são cada vez mais frequentes, causando consequências devastadoras para as populações e ecossistemas em todo o mundo. A ciência e registros do clima, aliados ao conceito do Antropoceno, apontam para a influência significativa das atividades humanas nas alterações dos padrões climáticos. Este modelo questiona o desenvolvimento baseado na queima de combustíveis fósseis e na exploração intensiva dos recursos naturais.
A comunidade internacional busca soluções para diminuir as mudanças climáticas e adaptar-se aos impactos em curso. O Acordo de Paris, firmado em 2015, estabeleceu metas ambiciosas, incluindo a limitação do aumento da temperatura global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Entretanto, as negociações sobre a distribuição dos ônus e responsabilidades têm sido ponto de disputa, com o princípio das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas” (CBDR) no centro das discussões
Apesar de sua história de emissões limitadas em comparação com sua população e território, a China tornou-se o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. Isso a coloca em posição peculiar no debate sobre as mudanças climáticas, uma vez que historicamente alinhava-se com os países em desenvolvimento, defendendo a responsabilidade dos países desenvolvidos. Dados disponíveis mostram que nos últimos anos, a China adotou postura mais proativa na busca por soluções sustentáveis, tanto em âmbito doméstico quanto internacional.
A China fez transição notável de país frequentemente visto como obstáculo às negociações climáticas para líder propositivo no cenário global. Isso ficou evidente durante o Acordo de Paris, quando o país se comprometeu a tomar medidas significativas para enfrentar as mudanças climáticas, reconhecendo sua importância no esforço global. Internamente, a China lançou a visão de uma “civilização ecológica”, combinando desenvolvimento sustentável, economia circular e baixas emissões de carbono. O mais recente Livro Branco do país, delineando suas políticas de Desenvolvimento Verde, reflete esse compromisso com a sustentabilidade.
Uma das principais contribuições da China para reduzir as mudanças climáticas é o investimento em energias renováveis. O país lidera na capacidade de geração de energia renovável, com foco particular em energia eólica e solar. Suas empresas tornam-se globalmente competitivas na fabricação e exportação de tecnologias limpas, incluindo painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas. Simultaneamente, direciona seu financiamento externo para projetos verdes em todo o mundo, inclusive na América Latina. Ações como a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) e o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura (AIIB) mobilizam bilhões de dólares para projetos em países em desenvolvimento, contribuindo para a transição para uma economia de baixo carbono. ​
América Latina: Um Foco nas Energias Renováveis
A América Latina é uma região que possui um grande potencial para energias renováveis, dada sua abundância de recursos naturais. Países como o Brasil, o México e o Chile têm investido significativamente em fontes de energia limpa. A China reconheceu essa oportunidade e tem financiado projetos de energias renováveis na região, fortalecendo ainda mais seus laços com nações latino-americanas.
Os principais bancos estatais chineses desempenham um papel fundamental na concessão de crédito para projetos de energias renováveis, tanto no país quanto no exterior. Essas instituições, juntamente com os bancos de desenvolvimento, estão alinhando cada vez mais seus investimentos com os princípios de sustentabilidade e descarbonização.
Um Futuro Sustentável em Construção
A China está se destacando como líder propositivo na luta contra as mudanças climáticas. Sua transição para uma economia de baixo carbono e seus investimentos em energias renováveis têm o potencial de impulsionar o mundo em direção a um futuro mais sustentável. Ao financiar projetos de energias renováveis na América Latina e em outras partes do mundo, o país não apenas contribui para a mitigação das mudanças climáticas, mas também colhe os benefícios econômicos de liderar a transição energética global.
Os avanços da China na trajetória de descarbonização de sua matriz energética, desempenha um papel inovador para uma ecocivilização, uma visão política que prioriza a sustentabilidade e o desenvolvimento econômico. Eles têm mostrado um compromisso significativo em elevar os padrões socioambientais de seus projetos de investimento externo direto (IED) e financiamentos internacionais. Isso não se traduz apenas em uma redução gradual da dependência do carvão, mas também em um foco crescente em projetos de energias renováveis.
A transição da China de financiadora de usinas de carvão para apoiadora de fazendas eólicas e parques solares no exterior reflete uma mudança significativa em seu perfil de atuação global. Busca refazer sua imagem como um ator ambientalmente responsável e alinhar suas práticas de cooperação para o desenvolvimento internacional com os princípios de desenvolvimento verde e de baixo carbono.
A América Latina desempenha um papel importante nesse cenário de transformação. A região concentra uma proporção considerável de projetos de geração de energia a partir de fontes limpas, o que a torna um destino estratégico para os investimentos. A diversificação dos atores financeiros e das modalidades de financiamento na região, incluindo bancos comerciais e operações de cofinanciamento, é fundamental para facilitar a implementação desses projetos.
O estudo apresenta dados que mostram que a mudança na abordagem da China em relação às energias renováveis e ao desenvolvimento verde tem implicações globais significativas. Como um dos principais investidores, financiadores e construtores de infraestrutura em escala global, a China desempenha um papel fundamental na luta contra as mudanças climáticas e na promoção de práticas sustentáveis em todo o mundo. À medida que o país avança em sua trajetória de descarbonização, os impactos positivos podem ser sentidos em escala global, à medida que mais nações buscam seguir o exemplo da China na promoção de energias renováveis e na redução das emissões de carbono. Essa evolução da China em direção à ecocivilização e à promoção das energias renováveis tem implicações significativas para o futuro da sustentabilidade e do combate às mudanças climáticas em todo o mundo, com impacto direto na América Latina.

– Ipea