20 de abril de 2024
Economia

Inadimplência recua pouco e crédito desacelera ainda mais

De acordo com os dados publicados hoje pelo Banco Central, a taxa de inadimplência das famílias nas operações com recursos livres soma quatro quedas consecutivas na comparação mensal. Desta vez o recuo foi mais tímido, de 5,93% para 5,91% na passagem de setembro para outubro. Desde o início do programa federal de renegociação de dívidas, o ‘Desenrola’, a taxa recuou 0,39 pontos percentuais; contudo, esta retração não deve ser atribuída somente ao programa. Neste mesmo período o indicador da Boa Vista de Registros de Inadimplentes também acumulou quatro quedas na comparação mensal e o crescimento na curva de longo prazo, medida pela variação acumulada em 12 meses, desacelerou de 20,0% ao final do 2º trimestre para 10,3% em outubro.
“Sem dúvida, o mês de outubro marcou a mais importante das etapas do ‘Desenrola’, quando as pessoas elegíveis, ou seja, aquelas com ganhos de até dois salários-mínimos e que tinham alguma restrição de crédito desde o final do ano passado, puderam renegociar até R$ 5 mil em dívidas. O resultado dela foi positivo: de acordo com o Ministério da Fazenda, R$ 151 bilhões em dívidas foram renegociados a um valor de R$ 25 bilhões, um desconto médio de 83%. Isso foi, ao menos parcialmente, captado pelo indicador da Boa Vista de Recuperação de Crédito, que cresceu 8% entre os meses de junho e outubro na comparação dos dados dessazonalizados, mas não podemos deixar de lado outros fatores igualmente ou mais importantes, como a melhora nos números do mercado de trabalho – que já eram bons –, o controle da inflação e a melhora na renda real, assim como a redução nos juros e gradativa no endividamento das famílias. Foi o efeito destes fatores que melhoraram os números de registros nos últimos meses e são eles que no longo prazo farão com que a inadimplência siga por um caminho de queda sustentável”, avalia Flávio Calife, economista da Boa Vista.
A inadimplência agora está no mesmo patamar de dezembro do ano passado e a taxa média de juros cobrada das famílias nas operações com recursos livres num patamar muito próximo daquele. Desde o final de junho ela recuou 3,68 pontos percentuais, para 55,37% e em dezembro ela estava na marca de 55,66% ao ano. Este recuo nos últimos quatro meses se deveu a uma queda no spread bancário de 3,71 pontos percentuais, para 43,68 pontos.
“Apesar da melhora, os juros ainda estão em níveis altos e fazem com que a concessão de recursos livres continue desacelerando, mesmo com a inadimplência em queda. Em 12 meses acumulados a concessão aponta alta de 9,7%, em junho esse número era de 13,2%. O indicador da Boa Vista de Demanda por Crédito do Consumidor referente ao segmento ‘Financeiro’ antecipou esse movimento e no mesmo período teve crescimento desacelerado de 13,1% para 10,3%. Outro motivo que pode explicar a falta de tração no crédito, além da base de comparação elevada, é o fato de que os credores sabem que parte dessa queda na inadimplência pode ter sido ‘forçada’ por um fator que, espera-se, não seja recorrente. Recentemente o presidente do Banco Central fez uma apresentação na qual dizia que um dos motivos para o alto spread no Brasil era o percentual baixo de recuperação de valores repactuados no país. O dado apresentado era de 18,2% e referente a 2020, não muito diferente do valor renegociado das dívidas por meio do ‘Desenrola’. Se esta prática se torna frequente o spread pode até cair, como temos visto, mas provavelmente num cenário de crédito mais restrito e de demanda reprimida, caso contrário, o spread terá mais um obstáculo a superar”, conclui Calife.

– Liberação de imprensa (Boa Vista)