Marketing – Por que algumas pessoas inauguram futuros enquanto outras apenas administram o presente?
Reinaldo Martinazzo
Há mais de quarenta anos, ouvi uma frase que nunca mais me abandonou.
Um executivo experiente, que se tornaria um dos grandes mentores da minha vida profissional, olhou para mim e disse: “Estou te escolhendo porque você consegue enxergar a segunda milha no meio do nevoeiro.”
Naquele momento, recebi aquelas palavras como um elogio.
Confesso, porém, que levei muitos anos para compreender o verdadeiro significado daquela afirmação.
Com o tempo percebi que ele não estava falando sobre capacidade de prever o futuro.
Também não se referia a inteligência privilegiada, talento incomum ou conhecimento técnico.
Falava de algo muito mais sutil.
Da capacidade de perceber possibilidades quando a maioria das pessoas ainda enxerga apenas as circunstâncias.
Na época, eu não tinha consciência disso.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquela frase passou a me acompanhar silenciosamente ao longo de toda a minha trajetória profissional.
Talvez ela explique por que sempre me interessei menos pelas respostas prontas e muito mais pelas perguntas capazes de mudar a maneira como as pessoas enxergam a realidade.
Ao longo de mais de quatro décadas convivendo com organizações, líderes e profissionais dos mais diferentes perfis, uma inquietação passou a me acompanhar.
Conheci pessoas extremamente competentes e que administravam empresas com eficiência. Conduziam equipes com maestria e entregavam resultados cumprindo metas.
Mas conheci também um grupo muito menor de pessoas que produziam algo diferente: elas iniciavam movimentos.
E quando deixavam a organização, permanecia a sensação de que alguma coisa importante havia começado durante sua passagem.
Não eram lembradas apenas pelas decisões que tomaram e nem pelos resultados que alcançaram. Eram lembradas porque mudavam a forma como outras pessoas compreendiam seu próprio trabalho.
Confesso que essa diferença sempre me intrigou e durante muito tempo não consegui explicá-la. Apenas a observava atentamente.
Foi somente muitos anos depois que encontrei, na obra de Hannah Arendt, uma reflexão que deu linguagem àquilo que a experiência já havia me ensinado.
Ao contrário do que muitos imaginam, Hannah Arendt não estava interessada apenas em compreender política ou interpretar acontecimentos históricos.
Sua pergunta era muito mais humana.
O que faz uma pessoa deixar de apenas viver os acontecimentos para tornar-se capaz de iniciar algo que antes não existia?
Essa talvez seja uma das questões mais profundas da liderança.
Porque administrar o presente é indispensável.
Toda organização precisa de pessoas competentes para manter processos funcionando, cumprir compromissos e entregar resultados.
Mas nenhuma organização constrói futuro apenas administrando o presente.
O futuro começa quando alguém consegue enxergar além da primeira milha.
Quando percebe possibilidades que ainda permanecem ocultas pela névoa.
Quando tem coragem de dar o primeiro passo antes que o caminho esteja completamente visível.
Foi isso que meu mentor enxergou naquela frase que levou tantos anos para amadurecer dentro de mim.
Ele não falava de previsão. Falava de discernimento.
Falava da rara capacidade de perceber aquilo que ainda não se tornou evidente para todos.
Hoje compreendo que enxergar a segunda milha não significa adivinhar o futuro.
Significa desenvolver sensibilidade suficiente para identificar sinais antes que eles se transformem em circunstâncias inevitáveis.
Talvez seja exatamente por isso que alguns líderes conseguem iniciar movimentos enquanto outros passam a maior parte do tempo apenas reagindo aos acontecimentos.
Uns administram consequências.
Outros tornam-se causa.
Hannah Arendt chamava isso de ação.
Não a ação entendida como simples fazer.
Mas a ação que inaugura.
Aquela que rompe a continuidade das coisas e abre espaço para uma realidade que ainda não existia.
Essa reflexão me faz pensar que o verdadeiro papel de um líder talvez nunca tenha sido apenas conduzir pessoas.
Nem apenas tomar decisões.
Muito menos controlar processos.
Sua contribuição mais valiosa talvez seja criar condições para que novos começos se tornem possíveis.
Ao longo da minha vida profissional, passei boa parte do tempo acreditando que ensinava Marketing, Liderança e Gestão.
Hoje percebo que, talvez, sempre tenha ensinado pessoas a pensar sobre si mesmas por meio dessas disciplinas.
Talvez seja exatamente isso que um grande mentor faz.
Ele não entrega futuros prontos.
Ajuda outras pessoas a enxergar a segunda milha quando a maioria ainda vê apenas o nevoeiro.
No fim das contas, grandes transformações raramente começam com respostas extraordinárias.
Quase sempre começam quando alguém faz uma pergunta capaz de mudar, para sempre, a maneira como enxergamos a realidade.
Talvez seja essa a maior contribuição de Hannah Arendt para os dias atuais.
Ela nos lembra que o futuro não nasce quando conseguimos prever o que acontecerá.
O futuro nasce quando alguém tem coragem de iniciar aquilo que ainda não existia.
Se esta reflexão despertou perguntas que também fazem sentido na realidade da sua organização, ela pode ser transformada em uma palestra, workshop ou processo de mentoria adaptado ao contexto da sua equipe.
Porque pensar é apenas o começo…


